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Curso de Xadrez
(Autor: Wilson da Silva)
 
 

ESPORTE

As definições, tanto de esporte como de jogo, são bastante imprecisas.
Tomemos a seguinte definição de esporte: “conjunto de exercícios físicos
18 praticados com método, individualmente ou por equipes”. (FERREIRA, 1986, ). Tomando esta definição por base, esportes como Tiro com Arco ou Tiro Esportivo não poderiam ser considerados esportes, pois quase não existe exercício físico, e, no entanto, não somente são esportes como são também esportes olímpicos.

Vejamos uma definição de jogo:

O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente
consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana.

Observe que tanto o xadrez como em qualquer outra competição
esportiva pode enquadrar-se dentro desta definição, se modificarmos o ponto que diz regras livremente consentidas, para regras oficiais da modalidade. E isso é bastante natural, pois os esportes são, na sua essência, jogos. Então através de seu status, grau de complexidade interna, grau de organização no mundo e poder de lobby, uma atividade será ou não considerada esporte pelo COB e IOC.
O xadrez é um esporte vinculado ao COB, mas não faz parte dos Jogos
Olímpicos, participando somente como demonstração. Em 1999 o IOC
concedeu, através de seu então presidente Juan Antonio Samaranch,
reconhecimento ao xadrez.

ARTE

Uma das muitas definições possíveis diz que arte é “a capacidade que
tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de
dominar a matéria”.

As pessoas que relacionam o xadrez somente com lógica estranham ao
ouvir que também pode ser uma forma de arte.
O aspecto lógico do xadrez não impede o expert de manifestar sua
criatividade, sua individualidade, de imprimir sua marca na partida. Quem joga xadrez provavelmente já experimentou a indescritível sensação de
arrebatamento estético ao realizar uma combinação4, satisfação esta similar à sentida ante uma obra mestra da pintura, música ou poesia.
Fato curioso de perceber é que tanto no xadrez como na música e na
matemática serem observadas crianças prodígios. Se compararmos estas três áreas do conhecimento com a pintura, a escultura e literatura, observaremos que nas últimas, a pequena experiência de vida não é suficiente para uma criança compor algo com valor estético.
Em contrapartida, no xadrez, na música e na matemática esta
experiência de vida não é fundamental. Segundo LASKER (1962, p. 153),
Mozart compôs e escreveu um minueto antes de completar quatro anos de idade. Gauss, aos três anos de idade, sem saber ler e escrever corrigiu uma comprida soma que seu pai fez.

Reshevsky jogou dez partidas simultâneas de xadrez aos seis anos de idade. Artistas contemporâneos normalmente mostram pouco interesse pelas atividades que exigem o pensamento lógico em demasia. Não negam a sua importância, mas não gostam que a lógica amarre o seu estilo. Mas muitos artistas do passado, ao contrário, utilizavam a linguagem matemática para compor suas obras.

Assim no jogo de xadrez, na abertura (fase inicial) e no meio-jogo (fase
intermediária), em contrapartida com o final, que possui muita lógica, somente a análise lógica não basta, devido ao elevado número de possibilidades a serem examinadas.
Então o enxadrista, diante da incapacidade do cálculo exato, orienta-se
por princípios gerais. Ao pautar-se por esses princípios o jogador de xadrez reduz as opções drasticamente a poucas a serem consideradas. Ocorre que mesmo com essa seleção prévia, ele precisa usar sua imaginação, sua intuição por assim dizer, para encontrar o melhor lance.
Como certa vez o físico John R. Bowman disse: “a impossibilidade de
conhecer o melhor lance é que eleva o xadrez de um jogo científico para uma arte, um meio de expressão individual”.

JOGO E EDUCAÇÃO

Em princípio devemos entender o jogo como uma atividade que obedece
ao impulso mais profundo e básico da essência animal.
Esta atividade inicia-se em nossas vidas com os mais elementares
movimentos, complicando-se até dominar a enorme complexidade do corpo humano.
Os primeiros jogos que a criança faz são os chamados jogos de
exercício, utilizando como principal objetivo o seu próprio corpo. Os bebês
chupam suas mãos, emitem sons e repetem diversos movimentos sem
finalidade utilitária.

A transição dos jogos de exercícios para os simbólicos marca o início de
percepção de representações exteriores e a reprodução de um esquema
sensório-motor fora de seu contexto.
Podemos dizer que o jogo simbólico é um jogo de exercício sendo o que
exercita é a imaginação.
Ao chegar o período das operações concretas (por volta dos sete anos
de idade) a criança, pelas aquisições que fez, pode jogar atendo-se a normas. Surgem então os jogos de regras, e ela terá que abandonar a arbitrariedade que governava seus jogos para adaptar-se a um código comum, podendo ser criado por iniciativa própria ou por outras pessoas, mas que deverá acatar limites porque a violação das regras traz consigo um castigo. Isto ajudará a criança a aceitar o ponto de vista das demais, a limitar sua própria liberdade em favor dos outros, a ceder, a discutir e a compreender. Quando se praticam jogos de grupo a experiência se engrandece já que a sociabilidade é agregada à vida da criança, surgindo assim os primeiros sentimentos morais e a consciência de grupo.
Quando a criança joga compromete toda sua personalidade, não o faz
para passar o tempo. Podemos dizer, sem dúvida, que o jogo é o “trabalho” da infância ao qual a criança dedica-se com prazer.
Pode-se perceber através do que foi exposto o valor educativo que a
prática lúdica possui. Muitos psicólogos afirmam que os primeiros anos são os mais importantes na vida do homem sendo que a atividade central manifestada é o jogo. É notável o que se pode aprender construindo seus próprios jogos, utilizando conceitos de plano inclinado, polias, velocidade, etc., coisas que só serão ensinadas muito depois no período escolar.

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